Odontologia do Esporte, agora é especialidade!

Odontologia do Esporte: Os desafios da nova especialidade
16 de agosto de 2016
A importância do atleta se consultar com um dentista especializado em odontologia do esporte.
16 de agosto de 2016

Odontologia do Esporte, agora é especialidade!

Existem duas datas que marcam essa nova área da odontologia. A primeira é dia 14 de outubro de 2014, onde na terceira Assembleia de Especialidades Odontológicas (ANEO) a área foi aprovada como nova especialidade. A segunda foi dia 06 de novembro de 2015, data em que o Conselho Federal de Odontologia pública a resolução que a oficializa.

Historicamente temos hora e data como marco da nova especialidade. Mas não é de agora que a Odontologia do Esporte vem sendo trabalhada. No Brasil nosso primeiro representante foi o doutor Mário Hermes Trigo de Loureiro (em memória) ou simplesmente Doutor Mário Trigo como era conhecido. O doutor Mário Trigo participou da história da seleção brasileira nas copas do mundo, sendo bicampeão mundial (1958,1962) e sua preocupação era que o foco dentário poderia ser responsável por debilitar a saúde do atleta, em 1958 dos 33 atletas da seleção ele removeu 118 dentes. No Brasil entidades e associações foram formadas e aqui não vou nomeá-las para não ser injusto com nenhuma delas sendo que todas foram extremamente importantes no desenvolvimento da especialidade. No dia 29 de setembro de 2012 um grupo de Dentistas que estavam ligados de alguma forma com a Odontologia do Esporte se reuniu na cidade do Rio de Janeiro para formar a Academia Brasileira de Odontologia do Esporte (ABROE) com o propósito fortalecer e ajudar no reconhecimento da especialidade.

Deixemos a história um pouco de lado e vamos falar e apresentar a nova área para a classe odontológica e para a população de atletas profissionais e amadores que serão os principais beneficiados pela especialidade. A Odontologia do Esporte trabalha com as particularidades e especificidades dos atletas com a intenção de promover, além de saúde bucal adequada a essa população uma melhora no seu rendimento físico. Entendemos que o instrumento de trabalho para um atleta é o seu próprio corpo e o equilíbrio é fundamental para o desenvolvimento de qualquer exercício. Imaginem um atleta com uma infecção do dente do siso antes de uma importante competição, será que o seu rendimento seria o mesmo tendo que realizar um esforço com dor? E se o mesmo atleta ao procurar um atendimento odontológico e no intuito de ajudar, o dentista o medica com uma substancia proibida pela sua confederação e ele é pego no exame antidoping? Vários medicamentos utilizados pela odontologia são proibidos pela wada, instituição responsável pala área do doping esportivo. Começaram a entender que não é tão simples assim. Em determinadas modalidades o consumo de repositores de sais minerais podem desmineralizar nossos dentes e a incidência e o risco da doença cárie aumenta em determinadas populações no esporte. Estudos recentes realizados por pesquisadores do RS relacionaram a doença periodontal, conhecida popularmente como doenças na gengiva com a deficiência de uma hipertrofia muscular adequada em animais treinados, o que condiz com o que o Doutor Mario Trigo acreditava antes da copa de 58.

Este é o momento talvez de eu colocar em pauta um desafio para a área: Odontologia do Esporte e a sua fundamentação científica. Em uma nova área tudo que é colocado deve ser encarado com grande seriedade, lembremos que o papel aceita tudo e a nossa mídia também, e se com pesquisas temos que ter alguns cuidados para avaliar as suas metodologias imaginem com a opinião pessoal. Na ciência existe uma pirâmide de evidências e através dela que devemos nos basear. A prática de saúde deveria ser baseada no melhor nível de evidência científica disponível. Nesse sentido, abordagens novas devem ser testadas por testes clínicos bem desenhados metodologicamente, de preferência por diferentes grupos de pesquisa, procurando assim evitar vieses que podem interferir na avaliação de sua eficácia. Nesta pirâmide sua base é formada pela opinião de especialistas que é menos relevante que relatos clínicos, que são menos importantes que estudos caso controle, seguidos de estudos de coorte e ensaios clínicos randomizados para chegar no maior índice de evidência científica que são as Revisões Sistemáticas. Vou citar um exemplo em que assim como a mídia nos ajuda a promover uma nova especialidade ela pode passar informações nada responsáveis. Se você digitar no Google queda de performance e odontologia aparecerá uma pesquisa dizendo que problemas bucais podem diminuir em 21% o rendimento de um atleta e se for atrás desta pesquisa não existe embasamento nenhum e nem uma metodologia adequada para tamanha afirmação.

A Odontologia do Esporte pode sim ajudar muito no rendimento dos nossos atletas e é fundamental em qualquer equipe multidisciplinar. Quer a opinião de um pesquisador sério, recentemente o doutor Ian Needleman publicou no British Journal of Sports Medicine uma pesquisa que comprova que problemas dentários podem sim contribuir na queda de performance dos atletas e que a presença de um Dentista é fundamental em qualquer equipe esportiva. Perceberam que até agora nada foi falado sobre os protetores bucais, é porque, apesar de ser o aparato mais conhecido e relacionado ao esporte a especialidade vai muito além. Os protetores bucais tem sua comprovação científica comprovada quanto sua eficácia na proteção dos traumatismos orofaciais, mas não é qualquer protetor. Mesmo assim 80% dos atletas utilizam um protetor inadequado, que são os vendidos diretamente em lojas de artigos esportivos. Protetores bucais adequados são os confeccionados pelo dentista ou por empresas para onde os profissionais encaminham o modelo da boca do atleta. Este protetor deve ser ajustado pelo dentista assim como as próteses e jamais pode ser entregue diretamente ao atleta.

Um protetor sem o ajuste adequado pode trazer problemas maiores que fraturas dos nossos dentes, neste momento entra uma das especificidades que os especialistas devem conhecer. O mercado é muito promissor para os profissionais que tem interesse na nova área. Com a proposta de melhor qualidade de vida, cada dia mais pessoas buscam a prática de uma atividade física de forma amadora ou profissional. Grandes clubes de futebol tem contratado podólogos, pois uma unha encravada impossibilita um atleta de jogar, e os problemas dentários não? Citei um profissional, mas o que eu quero dizer que todos os profissionais apresentam igual importância nas equipes esportivas principalmente quando muitas vezes milésimos de segundos estão entre a vitória e a derrota para muitos atletas de esportes individuais. Então imaginem que apesar do futebol ser o esporte mais praticado pelos brasileiros quantos outros atletas também necessitam de cuidados com sua saúde bucal. Outro dia em uma reportagem li que o tenista Rafael Nadal faz o uso de um protetor bucal para diminuir a compressão realizada entre os dentes durante as partidas de tênis, e isso ocorre em várias outras modalidades como levantadores de peso, bodybuildings, corredores, praticantes de mountain bike entre outros. Recebi uma notícia a poucos dias do aceite de uma pesquisa de uma tese de doutorado na Dental Traumatology que relaciona uma incidência maior de Disfunções Temporomandibulares em atletas de alto rendimento.

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