Odontologia do Esporte: Os desafios da nova especialidade

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Odontologia do Esporte, agora é especialidade!
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Odontologia do Esporte: Os desafios da nova especialidade

Agora a Odontologia do Esporte se tornou realidade, foi consenso na Assembleia Nacional de Especialidades Odontológica em 2014 e homologada dentro da resolução 160/2015 pelo Conselho Federal de Odontologia.

E agora quais serão os novos desafios desta nova especialidade?

Desde 1950 a American Dental Association se preocupava com a grande quantidade de traumas que ocorriam no Futebol Americano, em 1983 foi fundada a academia americana de Odontologia Esportiva. Até hoje nos Estados Unidos a Odontologia do Esporte é praticada, é estudada, mas não apresenta um curso de especialidade para a formação profissional. Dentro deste contexto, acredito que nosso país apresenta uma chance ímpar e exponencial de crescimento a favor da área. Odontologia do Esporte é com toda certeza a área da Odontologia que apresenta a maior relação interdisciplinar de todas já reconhecidas. A odontopediatria foi criada para atender as particularidades de uma população específica e mais recentemente o mesmo ocorreu com a odontogeriatria, que nos mostrou que o processo de envelhecer também acarreta em muitas diferenças fisiológicas que se refletem no atendimento odontológico.

Agora vamos entender os processos que envolvem um atleta.

Primeiramente o que é um atleta? Quais são as diferenças fisiológicas, o que o exercício físico promove de benefícios ou malefícios ao nosso organismo? Sua nutrição pode alterar características de nossa cavidade bucal? Podemos alterar algum fator psicológico ocasionando alterações ergogênicas capazes de interferir na performance de nossos atletas?

Esta relação interdisciplinar contempla áreas como a fisiologia do exercício, nutrição esportiva, fisioterapia esportiva, medicina do esporte, psicologia do esporte e é lógico a odontologia como todas as suas subáreas.

Vamos quebrar o primeiro paradigma, atleta de alto rendimento jamais será um exemplo de saúde. O estresse ocasionado nesses indivíduos os aproxima muito mais da doença do que da saúde.

Temos que entender que o exercício físico se resume a um processo inflamatório controlado pela carga e tipo de treinamento. Podemos fazer uma analogia a movimentação ortodôntica que também gera um processo inflamatório para obter uma resposta durante a movimentação dentária. Agora fica mais fácil entender como problemas odontológicos podem comprometer as respostas fisiológicas durante as atividades físicas.

Um grupo de pesquisadores do Rio Grande do Sul induziu um grupo de animais treinados à doença periodontal e comparou a um grupo de animais sedentários com a doença, avaliando a hipertrofia muscular em lesões musculares destes animais. Seria lógico imaginar que o grupo treinado teria que apresentar uma maior hipertrofia, correto? Os resultados demonstraram o contrário o fator treinamento interferiu na resposta inflamatória e a melhor hipertrofia ocorreu nos animais sedentários. Se encarar a atividade física como um processo inflamatório teremos algumas hipóteses para tais fatos. A inflamação gerada pelo exercício produz células inflamatórias que poderiam interferir na hipertrofia muscular ou atrapalhar algumas das etapas da cascata de inflamação atrapalhando o processo de reparo. Por isso a fisiologia do exercício é matéria básica e indispensável para a formação do profissional da área.

A nutrição do atleta também é importante, pois se o consumo energético for insuficiente a fadiga pode ser precoce. Durante atividades de alta intensidade a liberação de neurohormônios como a adrenalina acarreta em uma xerostomia transitória, que associada ao grande consumo de carboidratos e a formação de corpos cetônicos que acidificam o meio bucal favorecem o desenvolvimento da doença cárie.

Lembrando também o alto consumo de repositores de sais mineiras com baixo ph em sua composição. Alguns recentes artigos associam o uso de protetores bucais com uma melhora de rendimento em algumas modalidades esportivas. Resultados interessantes para a Odontologia do Esporte, mas cuidado para chegar a estas conclusões.

Lembrem-se da pirâmide de evidências científicas. Nesta pirâmide sua base é formada pela opinião de especialistas que é menos relevante que relatos clínicos, que são menos importantes que estudos caso controle, seguidos de estudos de coorte e ensaios clínicos randomizados para chegar no maior índice de evidência científica, que são as Revisões Sistemáticas. Quando falamos em melhora de performance uma série de vieses devem ser considerados. O simples fato do atleta se sentir mais protegido por um protetor bucal adequado pode gerar fatores ergogênicos suficientes para que nosso atleta apresente um ganho de força em determinadas atividades, estudos com ritmos musicais também apresentam resultados semelhantes. Como isto acontece, ainda a literatura é insuficiente para tal afirmação, mas em contra partida é um desafio para crescimento científico de nossa nova especialidade. A fisioterapia esportiva trabalha desde com a recuperação das lesões musculares onde a Odontologia pode contribuir eliminando possíveis focos de infecção e inflamações. A biomecânica dos movimentos também é estudada por está área e seu conhecimento pode ser relacionado com a posição da cabeça dos atletas que podem estar associadas com uma má oclusão, por exemplo. Outra grande área que necessita de pesquisas mais aprofundadas e com grandes perspectivas também.

A formação da graduação em Odontologia não contempla as áreas da saúde relacionada ao esporte, sendo assim a especialidade vem de encontro com as necessidades de um trabalho multidisciplinar em um contexto interdisciplinar. O mercado de trabalho é promissor, visto a grande quantidade de modalidades e esportes praticados tanto de forma recreativa quanto profissional. Em uma área nova o maior de todos os desafios com toda certeza é a consolidação científica que embasa a importância do cirurgião dentista no contexto de uma equipe esportiva. O senso crítico e bom senso são fundamentais neste contexto. Quer um exemplo, digite no Google queda de performance e odontologia aparecerá uma pesquisa dizendo que problemas bucais podem diminuir em 21% o rendimento de um atleta e se for atrás desta pesquisa não existe embasamento nenhum e nem uma metodologia adequada para tamanha afirmação. A Odontologia do Esporte pode sim ajudar muito no rendimento dos nossos atletas e é fundamental em qualquer equipe multidisciplinar.

Quer a opinião de um pesquisador sério? Recentemente o doutor Ian Needleman publicou no British Journal of Sports Medicine uma pesquisa que comprova que problemas dentários podem estar relacionados na queda de performance dos atletas e que a presença de um Dentista é fundamental em qualquer equipe esportiva. Outro dia em uma reportagem li que o tenista Rafael Nadal faz o uso de um protetor bucal para diminuir a compressão realizada entre os dentes durante as partidas de tênis, e isso ocorre em várias outras modalidades como levantadores de peso, bodybuildings, corredores, praticantes de mountain bike entre outros. Então os protetores bucais apresentam funções que vão além da proteção dos traumatismos orofaciais. Recebi uma notícia a poucos dias do aceite de uma pesquisa de uma tese de doutorado na Dental Traumatology que relaciona uma incidência maior de Disfunções Temporomandibulares em atletas de alto rendimento.

Por tudo que foi colocado vejo na Odontologia do Esporte além de um novo mercado de trabalho, uma nova linha de pesquisa que engrandece a Odontologia e transformará a maneira que as equipes esportivas visualizam o Cirurgião Dentista dentro do contexto esportivo.

Eli Luis Namba

 

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